18 de mar de 2012

A comida mais gostosa do mundo, por Flávia Torres

Especialistas se dividem na escolha dos melhores restaurantes do planeta, os mais talentosos chefs, os pratos mais deliciosos. No entanto, alguns ingredientes são como a impressão digital, exclusivos, individuais, acima da avaliação dos grandes experts.

Não existe tempero como o desejo — quando se quer comer uma massa em determinado lugar, ela é a top do mundo. Outra mistura única é a oportunidade. E a fome, que torna qualquer x-salada uma iguaria de Bocuse.

Por mais exigente que você se considere, veja se viveu alguma história parecida com a minha. Estudei em um colégio de freiras, um modelo de ensino. Escola pública de altíssimo nível. Trata-se do Colégio Jales Machado, na goiana Goianésia, minha cidade natal. Cursei ali o ginásio (hoje segunda fase do ensino fundamental) e o científico (hoje ensino médio).

As freiras eram as adoráveis Escravas do Divino Coração, uma congregação da espanhola Granada. Éramos abençoados. Tínhamos, além de esportes, teatro e eventos festivos. Para completar, dispúnhamos de um quadro de professores dificilmente visto nas escolas públicas de hoje.

Eu era desde então ansiosa e inquieta, desfrutava tudo que o colégio oferecia. Algumas freiras participavam de atividades na Igreja Matriz da cidade. As missas das 9 da manhã eram as das crianças. Assim, vivenciávamos nas aulas de ensino religioso reflexões e músicas como as da Campanha da Fraternidade, realizada todos os anos pela CNBB.

Irmã Divina, uma das freiras brasileiras, tinha uma das maiores bocas que eu já vi. Era craque nos instrumento de corda, demonstrava isso até nas aulas de religião e nos deixava afiados para a missa das 9. Eu, aos 12 anos, frequentava aulas de violão e logo caí nas graças da freira. Ensaiávamos a princípio na sala de aula mesmo.

Logo, estreitei os laços, saía da aula ao meio-dia e ia direto ensaiar no sagrado lar das freiras, contíguo ao colégio. A minha curiosidade de conhecer aquele lugar era tamanha que valia os riscos que menina de colégio de freiras não corre. E não os corri. Fique apenas na ansiedade, até a chance chegar.

Na primeira vez em que estive naquela casa enorme e fria, permaneci por algum tempo fuxicando cada canto com o mesmo fascínio desorientado que alguém sente ao encontrar seu gêmeo idêntico separado na maternidade. Tive que segurar meu ímpeto, fui literalmente brecada quando ousei seguir em direção aos aposentos sagrados.

Os ensaios também eram sagrados. Aconteciam três vezes por semana, religiosamente após o término das aulas. A essa altura, eu já estava com o estômago nas costas de tanta fome. Quando começávamos a cantoria, éramos envolvidas pelo cheiro delicioso da comida que vinha numa nuvem invisível e inebriante.

Eu sonhava em almoçar com as freiras. Ficava no delírio: terminávamos o ensaio e Irmã Divina me despachava para casa. Nesse momento, confesso, eu pensava: “Essa freira é cruel e sem coração”.

Comecei a adotar algumas estratégias para chegar à tão sonhada refeição. Dizia que estava morrendo de fome, pois não havia lanchado. Inventava que minha mãe não estava em casa preparando o almoço. Elogiava a voz da freira. Se já existisse CD e tivesse ouvido algum de Maria Callas, certamente a compararia a ela. Nada disso adiantava.

Um certo dia, bendito dia, o cheiro da comida estava mais intenso do que o costumeiro. Que tortura! Era um dia em que eu realmente não havia lanchado. Estava com uma fome ancestral (se é que algum antepassado foi submetido a isso), mal conseguia bater as cordas do violão. Mas eis que surge o tão sonhado convite. Irmã Isabel, a diretora espanhola, foi dar uma espiada em nosso ensaio e... ALELUIA!, ALELUIA!!, ALELUIA!!! Disse como música para meus ouvidos: “Quieres almorzar com nosotros?” Meu espanhol se limitava ao gracias, mas entendi perfeitamente que aquela criatura agora ungida estava me convidando para almoçar.

Nem fiz cerimônia, me levantei imediatamente, deixando a cantora bocuda e sem coração. Lépida e fagueira, segui Irmã Isabel. Cheguei à cozinha contendo a alegria e logo vi a mesa gigantesca com as freiras posicionadas para começar a refeição.

A essa altura Irmã Divina já estava chegando, sem esconder a surpresa e até o desapontamento com a minha presença na távola sagrada. A comida era simples, mas farta. Havia diversos tipos de legumes refogados, couve, abóbora kabutiá, quiabo, jiló, abobrinha, milho e chuchu. Uma travessa grande de alface e tomate. Carne de panela e moída, além de um frango ao molho. Arroz soltinho e feijão bem caldaloso.

Após uma oração, começamos a nos servir. Minha vontade era de comer de tudo, e muito. Lembrei-me de minha mãe e sua recomendação de nunca encher o prato. Novamente, me contive e servi arroz, feijão, kabutiá, jiló e carne moída.

Assim que terminei, uma freira sentada ao meu lado me fez servir novamente. Isso é que é amor ao próximo. Nem fiquei constrangida, repeti prazerosamente.

 Essa foi, e acredito que sempre será, a refeição mais gostosa que eu já comi. Goiânia, São Paulo, Paris ou Nova York, em nenhum desses lugares encontrei algo tão delicioso e fascinante quanto aquela comida simples e sagrada da casa das Escravas do Divino Coração.

Um comentário:

  1. Olá, tudo bem? Eu, Alessandra estava procurando no Google: "Como é a alimentação das freiras?", e apareceu o seu blog, adorei sua história. Estou fazendo um trabalho de Antropologia da Alimentação. Achei q a alimentação das freiras era restrita, mas pelo que vi não, mas elas seguem a regra de que comer muito é gulodisse (um pecado). Muito obrigada.

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